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Nosferatu e a intuição feminina silenciada

Levei uma semana para digerir a visceralidade da obra de Robert Eggers. São tantas camadas subjetivas e históricas que não sabia por onde começar. Vou introduzir alguns pontos dos principais que me marcaram, para além do óbvio: figurino e fotografia impecáveis.

Primeiro ponto, a visão da mulher na sociedade e papéis de gênero. Segundo, sexualidade. Terceiro, ancestralidade feminina. Quarto, e acredito, último, mitologia e superstição.

A primeira coisa que mais me marcou no filme foram os papéis de gênero e a solidão feminina vivida por Ellen, uma mulher recém casada que implora para o marido, Thomas não viajar. Thomas, por sua vez acredita que fazendo esse trabalho, daria condições de vida muito melhores para a esposa, mesmo não sendo o desejo dela. Ele, muito inseguro da sua atitude, ainda assim, embarca nessa viagem confusa em busca da recompensa financeira, acreditando ser o dever dele prover financeiramente a companheira que só desejava seu amor e proximidade. Ele viaja, querendo acreditar na intuição da mulher, mas, prefere assumir que são devaneios da esposa doente e emocionalmente instável.

Já perceberam que as mulheres sempre são taxadas de loucas, instáveis, histéricas e fantasiosas? Ellen, ao longo do filme se mostra sexualmente ativa e desejosa, sensível ao seu ambiente e as percepções mediúnicas que a envolvem. Em toda a internet circularam memes com o tema “Nosferatu é um filme sobre um calvo bigodudo e uma mulher com tesão”, o que não deixa de ser verdade. Historicamente sabemos que a histeria era curada com sessões de tortura e, posteriormente, com masturbação. As mulheres enlouqueciam pelo desejo de serem úteis, ouvidas, amadas, validadas e desejadas sexualmente. A libido era um pecado, era suja e era abafada com regras de moral e bons costumes. Estar viva e desejosa de algo era sinônimo de pecado e de uma alma volátil.

Nesse contexto faço o gancho com a ancestralidade feminina, quem éramos antes do patriarcado e a memória das sacerdotisas, bruxas, videntes e curandeiras. Ellen foi maltratada, sangrada e amarrada por um médico e mesmo assim seus surtos não foram contidos, tinham hora e duração marcada no relógio. O Dr. Von Franz descobre que ela estava possuída e consegue resolver o mistério por traz das convulsões. O mais engraçado é que são sempre as mulheres as possuídas nos textos e filmes, não é estranho? O enredo se desenrola em torno da busca de como matar o demônio que a possuía e que, agora, com a chegada de Orlok na cidade, toda a população sendo atacada pela praga. Thomas de volta, fraco e sob o efeito do Conde Orlok, também vulnerável sexualmente, já que a possessão dele não foi apenas sugando seu sangue. A confusão se instaura, porém ninguém da ouvidos à Ellen, cujo Dr. Von Franz elogia dizendo que “em outros tempos ela seria uma sacerdotisa de Isis”. Ou seja, ele vê Ellen com todas suas nuances mediúnicas, toda sua carga ancestral e visceral pulsando e diretamente conectada com a peste trazida pelo Conde.

Ellen sabe que, como uma sacerdotisa, como a maior fraqueza de Orlok (cujo ela mesma invocou, mesmo não sendo abordado na trama), ela deve se sacrificar para salvar à todos. Ellen carrega em si a sabedoria ancestral, está nela o poder da vida e da morte. Como deusas antigas, bruxas, curandeiras e feiticeiras. Somente ela pode amansar a fera e contê-la. Sendo, talvez, Orlok uma parte animal dela mesma, uma figura para representar seus traumas, seus medos e angústias. Ao invoca-lo, ela se torna segura e menos solitária, porém ao conhecer o marido, Thomas, tudo desaparece, as crises, os tormentos, as explosões de tesão e êxtase promovidas pelo Conde. O marido, representa um antídoto terreno para sua sensibilidade mediúnica.

Em Nosferatu, Conde Orlok e sua terra natal são repletas de superstições, magia e significados ocultos. Magia, pactos, dominações, rituais e possessões fazem parte da trama. O diretor resgata crenças antigas e costumes em um clima envolvente de mistério e, de leve terror. A incredulidade dos personagens burgueses e intelectuais contrastando com os camponeses tementes e cautelosos representa muito bem as culturas patriarcais e matrifocais. Em que no patriarcado a força e o intelecto são valorizados, enquanto abominam a conexão ancestral com a terra e suas emoções, sensações e intuições. Dito isso, acredito que o desfecho ao filme foi bem colocado, quando na cena final, também de fotografia e figurino impecável, Ellen se doa para Orlok em forma de saciar seu desejo obscuro e salvar o amado marido. Ela se entrega a sua natureza, profunda, sensível e obscura e mergulha com fé de que tudo que ela fez será perdoado através do seu sacrifício, afinal, ela se mostra sim, uma grande sacerdotisa.


Ellen representa, pra mim, a mulher indomável, a mulher subjugada e silenciada, mas que mesmo assim segue vivendo como acredita, com seus desejos, sonhos e pressentimentos. Ellen é uma memória ancestral e nos lembra que jamais devemos nos calar.

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A 'Cadela da Noite' - Nightbitch (2024) e a visceralidade da mulher-mãe

Canina (Nightbitch, 2024, escrito e dirigido por Marielle Heller, baseado no romance de 2021 de Rachel Yoder), foi o filme mais visceral que assisti nos últimos tempos. Uma obra que explora a maternidade e a essência feminina para além do básico. Já assisti diversos filmes que abordam o tema, mas esse enredo fantástico, que beira a loucura expressa tudo que nós mulheres no puerpério vivemos e sentimos.

Amy Adams, encarna lindamente a personagem principal, que é referida apenas como “mãe”, o que me leva a pensar em quantas vezes nós, mulheres, nos sentimos apenas mães. Uma fábrica de colo, leite, sangue e suor. Cuidadoras em tempo integral dos filhos e maridos, sem tempo para um banho, comer sem interrupção, muito menos para ler um livro. Ou o quanto nos sentimos burras e desinteressantes durante toda a gestação e tudo, absolutamente tudo, gira em torno de roupas, fraldas e o desenvolvimento daquele micro ser humano dentro de nós.

Uma das falas que descrevem esse processo é quando ela desabafa com o marido, referido como “pai”, o quão difícil era o cuidado, porque “era como se ela estivesse cuidando de um suicida”, e sabemos que à todo o instante, acidentes acontecem com crianças pequenas. Ela interpreta muito bem a sensação de esgotamento, frustração e o modus operandi materno, sempre em alerta aos perigos.

A sua reclusão em relação as outras mães por se achar péssima, sem paciência e sem ludicidade, ilustram as vidas de muitas mulheres. Nos sentimos solitárias, buscamos um ideal de criação que não existe, vendido por grandes industrias, influenciadores, médicos e terapeutas. Nos esquecemos dos nossos instintos, e não estou falando sobre instinto materno, mas de instinto humano, de seguirmos nossa natureza única e individual. Esquecemos que não nascemos com fórmulas ou manuais, porém desejamos incansavelmente de um roteiro para nossas vidas. Roteiros esses que são uma falsa ideia de segurança e estabilidade irreal.

Amy, como mãe, nos mostra através do olhar de si própria, em uma metamorfose animalesca, como o resgate da nossa essência é fundamental ao final do puerpério e como o resgate da mulher selvagem em si é um processo doloroso e cheio de rupturas. A mãe, se separa do pai nessa busca por si mesma, se permite ter seu tempo sozinha e anseia por ele. Faz uso desse espaço-tempo para criar e romper a crisálida que a prendia. E, com isso, seu tempo com o filho muda, ele se torna agradável, ela brinca, ri com o caos, descobre formas de viver diferentes, que funcionam, que saem da caixa e a deixam feliz. Ela se torna uma mãe melhor quando dedica um tempo à si, para a mulher-mãe.

Ao se dar conta de que “somos deusas, nós criamos ossos, pele e órgãos dentro de nós” ela, a mãe, se liberta da ideia de inferioridade feminina e materna que tinha sobre si e sobre as outras. Ela encontra, ao se abrir, um grupo de mulheres que são seu suporte nessa busca animalesca pela liberdade e o reencontro com faces perdidas.

Para além da alegoria mulher-fera, o filme aborda a relação do casal, mãe-pai e suas demandas de cuidado injustas com o filho. A falta de comprometimento de um pai que trabalha fora e não consegue ser funcional dentro da própria casa, que culpa e responsabiliza a parceira por esquecer de comprar o leite ou de deixar de ser a pessoa com a qual ele se casou.

Eu poderia passar horas escrevendo sobre o filme, unindo arquétipos e leituras como ‘Mulheres que correm com os lobos’, de Clarissa Pinkola Estés, ‘Mulheres, mitos e deusas’ da Martha Robles ou ‘As deusas e a mulher’ de Jean Shinoda Bolen, mas vou me limitar a dizer: assistam. Mulheres, mães ou não, homens, pais ou não, pessoas, apenas assistam. Para entender mães, porque, afinal, viemos de uma mãe, nos relacionamos com mães, e o mundo só é mundo por causa de mães. Insisto, assistam.

Finalizo dizendo que, assistiria mil vezes, porque Canina não me arrancou lágrimas, Canina me abraçou e disse “tudo bem, eu estou aqui, todas nós passamos por isso e tu não está só, eu sinto a tua dor”. Canina é um grito que vem das entranhas e ecoa no espaço, é sobre parir a si mesma, é sobre reencontrar-se.

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A mulher que eu era X A mulher que eu sou hoje


Alerta de sinceridade! 
Me peguei pensando na vida essa semana (que por sinal passou muito rápido), e percebi que quem eu sou hoje não estava nos meus planos floriados. Eu queria terminar a faculdade, talvez fazer outra ou um mestrado, ter minha própria casa (sozinha) e depois com o tempo, ter filhos. Mas, a maternidade me pegou no meio do caminho, trazendo todos os meus preconceitos a tona: eu não havia terminado a faculdade, ainda morava com meus pais, recém havia começado meu relacionamento com meu "marido" e pai do meu filho, havia trancado a faculdade em uma daquelas crises dos vinte e poucos anos em que tu não sabe ao certo se é aquilo mesmo que quer pra vida etc etc. 

Percebi que eu refletia diversos padrões mentais patriarcais e obsoletos que, de fato, não eram meus e sim da minha família. Um deles, e talvez o mais forte, era o que criança atrapalha os estudos e a vida profissional de uma mulher. E como eu segui na faculdade grávida (mais ou menos até as 32 semanas, quando eu consegui um atestado para terminar o semestre em casa) foi bem intenso lidar com meu próprio preconceito perambulando redondamente grávida pelo campus. Sentia que não me encaixava ali, via olhares onde não existiam e as vezes tinha diálogos internos incriveis sobre o que cada rosto estaria pensando. 

Voltei de licença maternidade quando o Ákilah tinha quatro meses, me sentia crua demais para aquilo e ainda deslocada. É realmente difícil estudar com uma criança pequena que demanda tanto de ti, mas tendo uma rede de apoio, não é impossível. Quando ele estava para completar 7 meses eu voltei a trabalhar e novamente contei com a rede de apoio, ainda tem coisas que precisam ser arrumadas e aprimoradas, mas tudo tem jeito. 

A questão é: (voltando ao foco do texto) eu acreditava que a vida tinha que acontecer em etapas e quando eu pudesse, mas vejo que ela acontece como deve acontecer, porque vidas reais são assim. Essa história contada em filmes raramente acontece e se ilude quem acredita. Obviamente que filhos podem ser planejados, mas nem sempre isso acontece. E aquela sua ex colega que teve que trancar o ensino médio porque engravidou, que tu achava que "não tinha se cuidado" foi mais uma mulher que caiu nas redes cruéis do patriarcado e da sociedade brutal que atinge as mulheres ainda hoje. 

Não somos ninguém para julgar os outros, o que fazem ou deixam de fazer. Quando e como decidiram (e se decidiram) ter um filho. Filho não atrapalha, só deixa a fase do jogo que é a vida mais difícil (e recompensante). E quem não quer ter filho e focar na carreira, tá certo também! Ah, não leva jeito e gosta do seu conforto? (porque ter filhos é sair do umbiguinho e viver por muito tempo com pouco) ótimo também! Eu vejo muita gente infeliz, principalmente as mulheres, porque acabam na obrigação de ter e fazer coisas que não querem ou não se sentem prontas. Isso só gera um caos ainda maior, como abandono, crianças crescendo sozinhas ou com uma mãe extremamente extressada (por estar num papel que não queria estar, mas foi conduzida ou forçada etc).

Eu acredito fortemente que quanto mais tu te debate sobre um certo assunto mais esse assunto "bate" a sua porta. Eu tinha esses preconceitos sobre estudos, trabalhos e maternidade e ele caiu como uma bomba no meu colo e no da minha família (que ainda não engole muito bem porque 'não foi o que planejamos para ti' como se a minha vida fosse deles).

Família, família uma grande questão! 
Enfim, fica essa reflexão do lugar da mulher e da mulher mãe, para todas as mulheres, mães ou não, que queiram ou não queiram ter filhos.
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O que as grávidas não dizem

Existem muitas coisas que nós (grávidas) não dizemos, mas sentimos e pensamos. Isso, obviamente varia muito de mulher para mulher, de sociedade, de classe etc. Mas, se você está ou já esteve grávida, com toda certeza pode afirmar.

Raramente ou nunca dizemos que estamos incomodadas com algo, porém isso deveria ser dito. Deveria ser dito que é muito chato quando você sobe no ônibus cheio no final do dia e as pessoas te olham e fingem que estão dormindo, lendo ou enfiam a cara no celular e dali não levantam até que chegue a parada delas. 

É chato também quando pessoas mais velhas te olham com nojo ou cara feia por você estar sentada no assento preferencial e ficam te empurrando com a barriga, bolsa etc. 
É muito constrangedor ter que pedir lugar, por isso não falamos, por isso não pedimos, acredito que boa parte das grávidas usa a tática de passar a mão na barriga ou na lombar para ressaltar que tu está esperando um bebê.

Outra coisa é o toque, não tem problema, na minha opinião, o toque na barriga, mas de pessoas que são intimas ou queridas, porém todo estranho que te vê na rua quer te tocar, as amigas da tia avó, da vizinha da sua tia, pessoas que dizem te conhecer desde criança mas que nunca trocaram mais que meia dúzia de palavras contigo. Ou ainda familiares, por serem "família" se acham no direito de tocar e dar palpite o tempo todo. Nem sempre queremos ser rudes, as vezes só calamos e nos sentimos violadas, sem um pingo de autonomia sobre seu corpo.

As pessoas te dizem o que comer, o que vestir, o que deve ou não fazer como se você fosse uma criança. Se metem na escolha do nome do bebê, em suas preferências, quando deve parar de amamentar, quando deve introduzir alimento, quando deve desfraldar, etc. 

Pessoas, não sejam assim.

Grávidas também detestam a gestação, o cansaço, o sono e a fome. Grávidas também bebem e fumam. Grávidas também querem se sentir sexys e gostam de ouvir que são! Grávidas também perdem a libido e enjoam da cara do/a companheiro/a.

Grávidas continuam sendo mulheres, continuam sendo assediadas nas ruas, continuam tendo seu corpo objetificado pela sociedade, seja sexualmente ou a endeusando e a tornando um bibelô fútil. Grávidas são iludidadas e enganadas por outras mulheres, mães, avós, tias... Nem tudo são flores, nem tudo é maravilhoso. 

Inclusive é incômodo, é chato, as vezes dói física e emocionalmente. As vezes a gente quer desistir, quer parar no meio, as vezes, essas vezes são tão recorrentes que tomam o mês inteiro.

Estar grávida é um ato de coragem, é quase ser militante, uma guerrilheira na selva do mundo e da sociedade.

Existem muitas coisas que grávidas não falam, coisas que ninguém deveria fazer, que não deveria ser necessário falar, pois deveria ser natural e respeitado. 

Afinal, grávidas são mulheres, e sabemos como mulheres são tratadas.
Triste, mas real. 
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Quantas vezes você fez sexo sem querer fazer?


Por onde começar? Pelo começo, certamente. Mas, e no começo você fez porque quis ou foi porque 'já estava na hora?' ou porque suas colegas já haviam feito e você se sentia excluída? Quem nunca foi posta de lado por ser 'virgem' e 'não entender'.

Sofremos, homens e mulheres, uma pressão muito grande acerca de todas as coisas possíveis no mundo, temos que estudar e fazer isso bem, trabalhar e ser o melhor, ter relacionamentos duradouros e por isso suportar todo e qualquer problema, temos que... o tempo todo. Sem contar que temos a pressão sexual, os meninos tem que ter relações cada vez mais cedo e as meninas precisam se 'resguardar', porém não é bem assim que funciona, sabemos que quanto mais cedo os meninos querem, mais cedo nós meninas cedemos aos apelos incessantes de alguns que não estão acostumados a ouvir não. 

Primeiramente quero esclarecer que não estou aqui para culpabilizar ninguém além da sociedade, e meninos não se sintam ofendidos, adoro vocês, porém as vezes é necessário contar o nosso lado e vai doer, e mais, tudo que eu falar é com base no que eu ou amigas próximas vivemos. 

Eu já perdi as contas de quantas vezes ouvi coisas como "mas eu te faço ficar com vontade", "é só entrar no clima", "mas eu tô tão afim" ou a pior "por que tu veio se não queria?" quando eu disse que não queria transar ou não estava no clima. Percebi agora como certas músicas me marcaram violentamente por causa desses momentos. Não posso mais ouvir The Killers ou The Kooks porque me lembro de todas as vezes que eu olhei pro teto e rezei silenciosamente pra que o cara gozasse logo porque eu não aguentava mais aquilo, porque estava me sentindo mal ou como nas ultimas vezes que me aconteceu, porque eu entendi que era uma violência, que era um estupro,

Teve um vídeo da Jout Jout (aqui) no carnaval que viralizou com o print de "Depois do não é tudo assédio", e nesse vídeo eu me dei conta de diversas coisas que me aconteceram e que aconteceram com amigas. A gente se sujeita, por mais que o cara diga "tu não tem que fazer algo que não quer", porém quando envolve sexo são outros quinhentos. 

Quantas vezes você já disse no meio do sexo que não estava gostando ou que queria parar e seu parceiro ficou de boa? Ok, comigo aconteceram algumas vezes, mas não sem eles insinuarem uma 'mãozinha' pra terminar. Quando eles mesmos não 'se dão aquela mãozinha' contigo ali do lado! Quer fazer uma mulher se sentir mal, nojenta, não vista nem amada é bater uma depois que ela disse que não queria, que estava doendo ou que simplesmente tinha passado a vontade. Como se fosse nossa culpa, ainda por cima 'perdermos a vontade assim do nada', uma pessoa perde a vontade por diversos motivos, problemas, ou porque a outra pessoa não está agradando, fica a dica. 

Meninas, me digam, quantas vezes vocês já não imaginaram estar em qualquer outro lugar ou com uma pessoa mais gentil, carinhosa ou menos repugnante do que aquele namorado que não percebe ou não faz questão de perceber que está sendo abusivo, que está te violentando e ainda te usando pra se satisfazer? Eu, várias! 

Ou quando eles te pegam pela mão gentilmente e te conduzem até um sexo desprotegido e segundos antes de gozar, param e perguntam "tu toma pílula né? não vai esquecer, senão vai dar ruim!" como se a responsabilidade de não gerar uma criança fosse somente nossa! Sem contar das diversas doenças e vírus que podem circular nesses momentos! Aah, e quando tu pede, com uma cara insegura, pra ele não 'pôr' sem camisinha e ele diz "só pra começar" e tu fica com aquela cara de "quê???" e ele já sai enfiando, não dá um desgosto? 

Somos retalhadas, abertas ao meio e cutucadas com espetos, facas, atiçadores de brasa, reviradas do avesso, exportas, submetidas e reprimidas, humilhadas e violentadas de tantas formas possíveis e impossíveis, sem contar nas chantagens emocionais, sem contar nas violências seladas com beijos e cartas de falso amor e ainda assim, vivemos. Ainda assim, estamos aqui lutando. Para sermos chamadas de frágeis, de dramáticas e que estamos fazendo uma 'tempestade em copo d'água'

Antes de julgar alguém tente se por no lugar dele, ver essa pessoa com outros olhos, despido dos seus preconceitos e 'achismos'. Outra dica, passe um dia como uma mulher, sozinha numa cidade grande, com pessoas estranhas e ruas desconhecidas e desertas. Quando até o cobrador te lança uma piscadinha e olha bem pra sua bunda, porque você sabe quando te olham, seu corpo esquenta, você quer se esconder e chorar, quer sua mãe, quer seu pai, quer alguém pra te proteger ou só sumir. Agora, como seria se seu parceiro, alguém que deveria ser um porto seguro, alguém em quem você poderia confiar, lhe faz algo tão degradante, que violenta seu corpo e não só, sua alma. Pega seus sentimentos e os rasga em pedacinhos.

Eu falo, não por uma, mas por várias mulheres, negras, brancas, trans, lésbicas, baixas, altas, magras e gordas. Eu falo por pessoas. Pessoas que merecem o mínimo de dignidade e respeito e na maioria dos momentos não recebe. 

Hoje eu digo "CHEGA!" e sei que ninguém vai me obrigar a fazer nada que eu não queira e é isso que eu falo pra minha irmã que atualmente tem 13 anos: se um cara te disser que faz tu ter vontade, ou que "teu corpo não nega a vontade que tu está" e por isso tentar justificar te obrigar a transar com ele, tu sempre pode e deve gritar que ele é um agressor e que tu está sendo violentada. Porque isso É SIM ESTUPRO!  

Toda vez que tu disser não e ele mesmo assim insistir, tu ceder e se sentir um lixo é porque você foi/está sendo estuprada, sinto em te dizer, caso você não tenha se dado conta. 

Procure pessoas que irão te apoiar e ajudar nessas questões, principalmente terapeutas. Terapia foi a melhor coisa que decidi investir, não sei se estaria aqui contando isso se não estivesse acompanhada do meu terapeuta fantástico! 

Enfim, acho que já contei coisas demais! 
Só lembre: Mulheres unidas! Nem uma a menos! Todas por uma e uma por todas! 


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Resenha: Outros jeitos de usar a boca - Rupi Kaur


Estou há meia hora olhando para essa tela em busca de palavras para descrever a sensação que é ler este livro. Milk and Honey, da Rupi Kaur é um livro sensacional! Eu li todas as vezes chorando e sempre que vou emprestar ele para alguém acabo lendo mais uma vez, e chorando, é claro. 

A primeira vez que eu soube desse livro foi no canal da Jout Jout, ela leu diversas poesias dele e eu fiquei com gostinho de quero mais na boca. Depois a minha linda Bruna Morgan escreveu uma resenha sobre e eu fiquei gritando desesperadamente. Até que mês passado eu consegui comprar em uma oferta relâmpago na Amazon. 

(link do skoob)
Outros jeitos de usar a boca
Rupi Kaur
Ano: 2017
Páginas: 208
Editora: Planeta Brasil
Avaliação: ★★★★★
Sinopse Skoob: 'outros jeitos de usar a boca' é um livro de poemas sobre a sobrevivência. Sobre a experiência de violência, o abuso, o amor, a perda e a feminilidade. O volume é dividido em quatro partes, e cada uma delas serve a um propósito diferente. Lida com um tipo diferente de dor. Cura uma mágoa diferente. Outros jeitos de usar a boca transporta o leitor por uma jornada pelos momentos mais amargos da vida e encontra uma maneira de tirar delicadeza deles. Publicado inicialmente de forma independente por Rupi Kaur, poeta, artista plástica e performer canadense nascida na Índia – e que também assina as ilustrações presentes neste volume –, o livro se tornou o maior fenômeno do gênero nos últimos anos nos Estados Unidos, com mais de 1 milhão de exemplares vendidos.
O vídeo da Jout Jout


Resenha

Esse não é um daqueles livros que você compra pra se divertir. Ele é sofrido. Ele corta. Ele faz doer até mesmo onde você achava que não seria possível sentir algo. Cada palavra, cada verso é ensopado de sentimentos que a maioria das mulheres já sentiu ou presenciou. O abandono, a agressão, o abuso, a dor, a ilusão, a raiva, o amor, a descoberta do amor próprio, e diversos outros. 

Eu pude, pela primeira vez em toda a minha vida, me ver naqueles poemas que não foram feitos por mim, porque foram justamente feitos por uma mulher de verdade, que sofreu de verdade, que passou tudo que passou de verdade, e ela veio nos dizer o quão fantásticas nós somos e que não devemos nos deixar ser maltratadas por pessoas que não sabem entrar pela porta da frente e sentar no sofá como uma boa visita.

Aqui estão alguns de muitos (todos) os poemas que me tocaram profundamente.








Esse vídeo também é fantástico!


Enfim, não há mais o que falar, já que as palavras da Rupi falam por si só! 


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