A Noiva (2026) e a rebeldia feminina

Assisti recentemente A Noiva! (2026) e me surpreendi por ter sido escrito e dirigido por Maggie Gyllenhaal (sim, eu não fico buscando saber sobre diretores), a mesma de A Filha Perdida(2021) que eu já refleti sobre aqui. Primeiro ponto que me deixou de queixo caído foi o fato do filme ser narrado pelo fantasma/espírito de Mary Shelley que parece possuir o corpo da protagonista, Ida. Ela parece uma mulher sensata e contida, envolta em segredos, mas que ao trocar de personalidade berra e esbraveja, cuspindo segredos e protestos, ora Ida ora Mary.

Em meio aos surtos e crises, Ida morre e nesse momento ela começa uma nova trajetória. Ao ser desenterrada por Frankenstein e revivida pela Dra. Euphronious não se lembra de nada, suas crises são recorrentes e involuntárias. Ela tem fome e desejo de viver, partindo em busca de mais e fazendo justiça por onde passa. Ambientada na Chicago dos anos 1930, onde existe certa liberdade feminina, mas ainda muita violência explícita, A Noiva parece saída de uma história de Bonnie e Clyde, misturada com musicais da Broadoway.

O filme todo é envolto em uma trama de feminicídios, crimes em que as mulheres são encontradas sem línguas e fala-se do mafioso que coleciona línguas em potes. Também na polícia corrupta e agentes infiltrados. Nesse contexto Ida, também chamada Penélope temporariamente por Frank, anseia por encontrar o sentido de estar viva, suas memórias e sua voz e nessa busca acaba descobrindo sobre seu passado, morte e sentido. Ela inspira mulheres a se revoltarem, tornando-se a musa inspiradora de um movimento rebelde feminino que protesta contra as mortes.

Ida, ao encontrar com o espirito de Mary se transforma em outra mulher, toma as rédeas da sua raiva e da vida. Ela é a imagem da mulher que precisa calar e ser boazinha para sobreviver. Ainda assim, quando morre não perde a língua, não perde a voz e com ela é que consegue gritar e fazer sangrar todos os que violaram mulheres. Ela é como uma voz ancestral que não permite massacres, injustiças e mais dores femininas, nos convidando ao berro, a devolver o desconforto, a falar obscenidades como os homens falam.

A Noiva encarna essa figura monstruosa feminina, que mesmo assim recebe amor e sabe que merece ser amada. Ela é crua, visceral, quebrada e talvez até defeituosa, mas tão, tão real! A noiva é como todas nós, lutando para sobreviver, dia após dia, noite após noite, sempre cheia de vontade de viver, com brilho nos olhos e tristeza no coração.

Ida carrega com ela a ferida de ser mulher, de ver as suas companheiras/amigas mortas, ver a injustiça e não poder fazer nada e ainda buscar a felicidade, o amor, o desejo, a satisfação e, obviamente, a vingança (porque uma mulher de verdade se vinga, não é mesmo meninas?).

Provavelmente homens não entenderão tão profundamente o filme, afinal não é hiper sexualizado e trata de assuntos tão visivelmente profundos femininos. Existem coisas que não conseguimos explicar, são como as memórias, os flashes que Ida tem. São coisas que só sabemos porque sentimos na pele.

Acredito que A Noiva é um desses filmes terrivelmente feministas que serão mal vistos, mas que a maioria das mulheres vai gostar e se identificar. A Noiva ganhou nomes, ganhou personalidade, ganhou voz! Ela está viva, tem anseios, é irreverente, ama, odeia, é feroz e nada bem comportada! O filme ganhou meu coração! 


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Drácula: A Love Tale (2025)

Escrito e dirigido por Luc Besson (de O quinto elemento, O profissional e outros), é um romance de fantasia gótica baseado no clássico livro de Bram Stoker, Drácula de 1897. Preciso dizer que relutei muito em escrever sobre esse filme, mesmo tendo adorado e chorado muito no cinema. Fiquei completamente hipnotizada e inebriada com tudo, a releitura do clássico, a linha do tempo, cenários, figurino, fotografia, trilha sonora e por aí vai. Sou uma amante de romances góticos, principalmente os de vampiro e criaturas noturnas. E, por esse motivo achei que escrever sobre o filme seria mero clichê de uma amante de filmes de vampiros (sim, eu li crepúsculo umas 3x e assisti todos os filmes da saga, me julguem).

Também sou apaixonada por dramas sem finais felizes, amores impossíveis e toda a estética de almas gêmeas que se encontram e se separam. Dito isso e vocês estando avisados que haverá muita rasgação de seda pelo filme, podemos prosseguir.

Aviso aos navegantes que por aqui trabalhamos com spoillers com fins de instigar você, caro leitor a apreciar as obras das quais indico!

O filme começa mostrando momentos mágicos e apaixonados de Vlad e sua espoa, Elisabeta em um clima quase como o de Sonhos de uma noite de verão. Ela é tudo para ele e ele é a vida dela (Berros internos, quem não deseja um homem apaixonadíssimo não é mesmo? Shiu, não fala nada sobre obsessão ser nocivo! Obrigada!), porém Vlad precisa ir para a guerra contra os Otomanos e daí por diante é só ladeira abaixo. Mas, teve uma cena que eu só entendi quando eu assisti umas entrevistas com os atores que é quando o Caleb (quem dá vida ao Vlad) diz: e tudo fica ainda mais intenso porque ela está grávida (gente, meme da bomba explodindo). Fiquei desolada e reassisti diversas vezes ao trecho do filme e realente os olhares dos dois se falam!

Blá blá blá ela morre nos braços dele em uma das cenas mais incríveis até então. Ele renega deus, se torna um vampiro e todo aquele desenrolar clássico de Drácula. Temos sim muitas coisas diferentes, outras visões que não foram exploradas em outras adaptações, como a de um Drácula que sofre de depressão e tenta se suicidar diversas vezes, roda o mundo em busca de reencontrar sua esposa que pode ter renascido após 100, 200, 300, 400 anos. Um Drácula perfumista, feiticeiro por assim dizes e extremamente obcecado em encontrar o grande amor da sua vida. Não necessariamente mau, mas desiludido com a futilidade da corte e entediado o suficiente ao ponto de não ligar para quem mata, se isso o fará chegar onde deseja: sua esposa.

Corta para Londres e Mina preocupada com sua amiga Maria que foi internada em um hospital psiquiátrico por ter surtado no casamento por causa de um padre (sorrisinho amarelo aqui gente), o Dr Van Helsing levanta a causa da loucura de Maria e uma equipe se forma para tentar descobrir quem fez isso com ela. Eu nem vou entrar no personagem de Jonathan Harker porque ele é, em todas as adaptações um grande banana tapado e sua única serventia é mostrar a fotografia de Mina ao vampirão apaixonado, ponto e é isso.

Nessa versão não aparecem as famosas noivas do Drácula, a trama foca especialmente no amor dele pela esposa durante os quatro séculos como vampiro. Entretanto Vlad tem ajudantes que o servem, seres mágicos em forma de gárgulas, ou seja, apesar de sozinho, ele não vive só.

Ao encontrar a imagem de sua amada reencarnada viaja para Londres, onde encontra sua pupila e serva, Maria que diz ter encontrado sua amada Princesa Elisabeta e cumprido sua missão! Nesse ponto temos a cena de reencontro apaixonada, me segurei para não gritar no cinema: ao ver Mina chegando com Maria, todas as pessoas ao redor somem, como se só existisse ela e imagens dela como Elisabeta surgem oscilando entre a atualidade e o passado. Nesse momento vemos um Vlad absorto e encantado, olhos marejados e sorriso apaixonado

Estupefato, eu diria! Eles se conhecem, passam tempo juntos e o clima de romance e reencontro permeia o ar. O clímax do filme é alcançado quando ele mostra uma caixinha de música e ela relembra memórias da sua outra vida e eles voltam ao castelo.

Porém, como é um conto trágico, vemos o desfecho do nosso casal sendo a disputa por manter Mina viva e matar Drácula, livrando a humanidade da praga vampírica. Todo o clima de: se você a ama a deixe viver sem amaldiçoá-la! Então, como em Romeo e Julieta, após pouco tempo juntos, nosso casal se separa através da morte.

Fico indignada? Sim, porque na minha mente eles mereciam uma eternidade juntos como vampiros! Não achei até então uma história assim (não vou citar crepúsculo) em que o amor vivido eternamente seria tão ruim quanto deixar sua amada livre da maldição. Muita abnegação e pouco amor apaixonado. Fico repetindo a frase: sempre um bando de homens recalcados achando que precisam salva a mocinha que escolheu viver sua aventura com um moreno, rico, gótico de hábitos duvidosos.

Na vida real, obviamente que essa obsessão é uma loucura, mas em um mundo onde a realidade é tão cruel, a ideia de um amor para toda a vida parece um bálsamo milagroso para todos os problemas. O famoso: e viveram felizes para sempre ainda é um ideal para muitas pessoas e um sonho inalcançável também.

Por esses e outros motivos que relutei demais para escrever, porque sou cadelinha de Drácula em qualquer adaptação existente (não me mostrem adaptações péssimas e duvidosas, agradecida). A Zoe Bleu (Mina), atriz que faz par romântico com o Caleb Landry Jones é quase um ser etérico, uma mistura de fada e elfa, belíssima e sua interpretação é de uma sutileza e sensualidade pincelada com inocência de tirar o fôlego! 
Vale cada minuto assistido, é como se o tempo parasse enquanto estamos presenciando o amor desses dois! O filme é uma mescla de drama com pinceladas de comédia, regado ao romance gótico obsessivo. Então, é isso. Super indico o filme, assistam e me contem depois!


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Nosferatu e a intuição feminina silenciada

Levei uma semana para digerir a visceralidade da obra de Robert Eggers. São tantas camadas subjetivas e históricas que não sabia por onde começar. Vou introduzir alguns pontos dos principais que me marcaram, para além do óbvio: figurino e fotografia impecáveis.

Primeiro ponto, a visão da mulher na sociedade e papéis de gênero. Segundo, sexualidade. Terceiro, ancestralidade feminina. Quarto, e acredito, último, mitologia e superstição.

A primeira coisa que mais me marcou no filme foram os papéis de gênero e a solidão feminina vivida por Ellen, uma mulher recém casada que implora para o marido, Thomas não viajar. Thomas, por sua vez acredita que fazendo esse trabalho, daria condições de vida muito melhores para a esposa, mesmo não sendo o desejo dela. Ele, muito inseguro da sua atitude, ainda assim, embarca nessa viagem confusa em busca da recompensa financeira, acreditando ser o dever dele prover financeiramente a companheira que só desejava seu amor e proximidade. Ele viaja, querendo acreditar na intuição da mulher, mas, prefere assumir que são devaneios da esposa doente e emocionalmente instável.

Já perceberam que as mulheres sempre são taxadas de loucas, instáveis, histéricas e fantasiosas? Ellen, ao longo do filme se mostra sexualmente ativa e desejosa, sensível ao seu ambiente e as percepções mediúnicas que a envolvem. Em toda a internet circularam memes com o tema “Nosferatu é um filme sobre um calvo bigodudo e uma mulher com tesão”, o que não deixa de ser verdade. Historicamente sabemos que a histeria era curada com sessões de tortura e, posteriormente, com masturbação. As mulheres enlouqueciam pelo desejo de serem úteis, ouvidas, amadas, validadas e desejadas sexualmente. A libido era um pecado, era suja e era abafada com regras de moral e bons costumes. Estar viva e desejosa de algo era sinônimo de pecado e de uma alma volátil.

Nesse contexto faço o gancho com a ancestralidade feminina, quem éramos antes do patriarcado e a memória das sacerdotisas, bruxas, videntes e curandeiras. Ellen foi maltratada, sangrada e amarrada por um médico e mesmo assim seus surtos não foram contidos, tinham hora e duração marcada no relógio. O Dr. Von Franz descobre que ela estava possuída e consegue resolver o mistério por traz das convulsões. O mais engraçado é que são sempre as mulheres as possuídas nos textos e filmes, não é estranho? O enredo se desenrola em torno da busca de como matar o demônio que a possuía e que, agora, com a chegada de Orlok na cidade, toda a população sendo atacada pela praga. Thomas de volta, fraco e sob o efeito do Conde Orlok, também vulnerável sexualmente, já que a possessão dele não foi apenas sugando seu sangue. A confusão se instaura, porém ninguém da ouvidos à Ellen, cujo Dr. Von Franz elogia dizendo que “em outros tempos ela seria uma sacerdotisa de Isis”. Ou seja, ele vê Ellen com todas suas nuances mediúnicas, toda sua carga ancestral e visceral pulsando e diretamente conectada com a peste trazida pelo Conde.

Ellen sabe que, como uma sacerdotisa, como a maior fraqueza de Orlok (cujo ela mesma invocou, mesmo não sendo abordado na trama), ela deve se sacrificar para salvar à todos. Ellen carrega em si a sabedoria ancestral, está nela o poder da vida e da morte. Como deusas antigas, bruxas, curandeiras e feiticeiras. Somente ela pode amansar a fera e contê-la. Sendo, talvez, Orlok uma parte animal dela mesma, uma figura para representar seus traumas, seus medos e angústias. Ao invoca-lo, ela se torna segura e menos solitária, porém ao conhecer o marido, Thomas, tudo desaparece, as crises, os tormentos, as explosões de tesão e êxtase promovidas pelo Conde. O marido, representa um antídoto terreno para sua sensibilidade mediúnica.

Em Nosferatu, Conde Orlok e sua terra natal são repletas de superstições, magia e significados ocultos. Magia, pactos, dominações, rituais e possessões fazem parte da trama. O diretor resgata crenças antigas e costumes em um clima envolvente de mistério e, de leve terror. A incredulidade dos personagens burgueses e intelectuais contrastando com os camponeses tementes e cautelosos representa muito bem as culturas patriarcais e matrifocais. Em que no patriarcado a força e o intelecto são valorizados, enquanto abominam a conexão ancestral com a terra e suas emoções, sensações e intuições. Dito isso, acredito que o desfecho ao filme foi bem colocado, quando na cena final, também de fotografia e figurino impecável, Ellen se doa para Orlok em forma de saciar seu desejo obscuro e salvar o amado marido. Ela se entrega a sua natureza, profunda, sensível e obscura e mergulha com fé de que tudo que ela fez será perdoado através do seu sacrifício, afinal, ela se mostra sim, uma grande sacerdotisa.


Ellen representa, pra mim, a mulher indomável, a mulher subjugada e silenciada, mas que mesmo assim segue vivendo como acredita, com seus desejos, sonhos e pressentimentos. Ellen é uma memória ancestral e nos lembra que jamais devemos nos calar.

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A 'Cadela da Noite' - Nightbitch (2024) e a visceralidade da mulher-mãe

Canina (Nightbitch, 2024, escrito e dirigido por Marielle Heller, baseado no romance de 2021 de Rachel Yoder), foi o filme mais visceral que assisti nos últimos tempos. Uma obra que explora a maternidade e a essência feminina para além do básico. Já assisti diversos filmes que abordam o tema, mas esse enredo fantástico, que beira a loucura expressa tudo que nós mulheres no puerpério vivemos e sentimos.

Amy Adams, encarna lindamente a personagem principal, que é referida apenas como “mãe”, o que me leva a pensar em quantas vezes nós, mulheres, nos sentimos apenas mães. Uma fábrica de colo, leite, sangue e suor. Cuidadoras em tempo integral dos filhos e maridos, sem tempo para um banho, comer sem interrupção, muito menos para ler um livro. Ou o quanto nos sentimos burras e desinteressantes durante toda a gestação e tudo, absolutamente tudo, gira em torno de roupas, fraldas e o desenvolvimento daquele micro ser humano dentro de nós.

Uma das falas que descrevem esse processo é quando ela desabafa com o marido, referido como “pai”, o quão difícil era o cuidado, porque “era como se ela estivesse cuidando de um suicida”, e sabemos que à todo o instante, acidentes acontecem com crianças pequenas. Ela interpreta muito bem a sensação de esgotamento, frustração e o modus operandi materno, sempre em alerta aos perigos.

A sua reclusão em relação as outras mães por se achar péssima, sem paciência e sem ludicidade, ilustram as vidas de muitas mulheres. Nos sentimos solitárias, buscamos um ideal de criação que não existe, vendido por grandes industrias, influenciadores, médicos e terapeutas. Nos esquecemos dos nossos instintos, e não estou falando sobre instinto materno, mas de instinto humano, de seguirmos nossa natureza única e individual. Esquecemos que não nascemos com fórmulas ou manuais, porém desejamos incansavelmente de um roteiro para nossas vidas. Roteiros esses que são uma falsa ideia de segurança e estabilidade irreal.

Amy, como mãe, nos mostra através do olhar de si própria, em uma metamorfose animalesca, como o resgate da nossa essência é fundamental ao final do puerpério e como o resgate da mulher selvagem em si é um processo doloroso e cheio de rupturas. A mãe, se separa do pai nessa busca por si mesma, se permite ter seu tempo sozinha e anseia por ele. Faz uso desse espaço-tempo para criar e romper a crisálida que a prendia. E, com isso, seu tempo com o filho muda, ele se torna agradável, ela brinca, ri com o caos, descobre formas de viver diferentes, que funcionam, que saem da caixa e a deixam feliz. Ela se torna uma mãe melhor quando dedica um tempo à si, para a mulher-mãe.

Ao se dar conta de que “somos deusas, nós criamos ossos, pele e órgãos dentro de nós” ela, a mãe, se liberta da ideia de inferioridade feminina e materna que tinha sobre si e sobre as outras. Ela encontra, ao se abrir, um grupo de mulheres que são seu suporte nessa busca animalesca pela liberdade e o reencontro com faces perdidas.

Para além da alegoria mulher-fera, o filme aborda a relação do casal, mãe-pai e suas demandas de cuidado injustas com o filho. A falta de comprometimento de um pai que trabalha fora e não consegue ser funcional dentro da própria casa, que culpa e responsabiliza a parceira por esquecer de comprar o leite ou de deixar de ser a pessoa com a qual ele se casou.

Eu poderia passar horas escrevendo sobre o filme, unindo arquétipos e leituras como ‘Mulheres que correm com os lobos’, de Clarissa Pinkola Estés, ‘Mulheres, mitos e deusas’ da Martha Robles ou ‘As deusas e a mulher’ de Jean Shinoda Bolen, mas vou me limitar a dizer: assistam. Mulheres, mães ou não, homens, pais ou não, pessoas, apenas assistam. Para entender mães, porque, afinal, viemos de uma mãe, nos relacionamos com mães, e o mundo só é mundo por causa de mães. Insisto, assistam.

Finalizo dizendo que, assistiria mil vezes, porque Canina não me arrancou lágrimas, Canina me abraçou e disse “tudo bem, eu estou aqui, todas nós passamos por isso e tu não está só, eu sinto a tua dor”. Canina é um grito que vem das entranhas e ecoa no espaço, é sobre parir a si mesma, é sobre reencontrar-se.

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Porto seguro, ponto de fuga ou ponto de partida?

Quando somos jovens sempre achamos que podemos contar com os outros. E, às vezes, podemos. Mas, na maioria das vezes não. Me dei conta de que seria só eu contra o mundo no momento que senti meu filho no ventre. Éramos só eu e ele. Hoje somos eu, Ákilah e Flora. Até quando? Não sei. Um dia serei só eu, novamente. Eu e minha solidão, que jamais me abandona. 

Mulheres são, quase sempre denominadas como porto seguro da relação, cujo outro pode voltar e encontrar abrigo. Mulheres nunca são os navios, são sempre o farol, estático. Mulheres são o ponto de fuga, e são de onde os outros zarpam para suas vidas agitadas e jamais voltam. São trampolins que alçam os outros para o alto. 

Será que um dia seria o meu porto seguro? Será possível ser meu ponto de fuga e de partida? Será que tudo é loucura da minha cabeça e estou perdendo a sanidade ou é só o pessimismo pré-menstrual? 

Me sinto cheia de tralhas que não são minhas, de miasmas que ficaram das relações e à medida que me solto e me liberto, liberto os fantasmas presos em relicários bonitos. Para ser leve é necessário soltar, mas ser leve não é esquecer, ser leve depende de lembrar

E, enquanto meus dedos finos se agarram às amarras que eu mesma me impus, eu choro com medo de ser apenas ponto de partida e não de chegada, morada. Meu corpo, minha casa. Casa que abrigou vidas e hoje se encontra desocupado. Não desejo mais visitantes, mas tem um que me chega tão gostoso e carinhoso, que o dengo me ganha. 

Mas, e o medo de ser deixada, onde ele fica? No roll de entrada, de frente para a porta, como alerta, apesar de, às vezes, ser completamente ignorado, tanto por mim, quanto pelos outros. E as rachaduras que eu tentei cobrir, e seguem aparecendo por baixo da massa sólida? Sou mesmo assim uma alma nobre e cheia de vida, que merece o amor e tudo que vem dele ou apenas o resto? E o que eu faço com a minha velha mania de me sabotar, de mandar embora quem deseja ficar e pedir que fiquem os que desejam apenas passar? 

E, se eu não deixar saudade ao ponto de receber uma batina repentina na porta? E se eu for só mais uma página na tua história? E, nesses “e ses” eu me perder e não souber voltar?


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Não me calarei

Cresci ouvindo que “o calado vence”, aprendi a evitar conflitos enquanto o que eu mais desejava era esmurrar a cara de pessoas. Aprendi que era errado e feio ser agressiva, assertiva, incisiva e que certas conversas seriam desnecessárias, já que o outro não iria entender. 

Cresci calando os meus sentimentos, perdendo a voz. Cresci com medo da rejeição ao ponto de não conseguir verbalizar tais medos para quem eu amava. Quem me causava essas certas inseguranças. Penso que cresci para agradar aos outros e não à mim

Hoje, com quase trinta anos, finalmente percebi o quão importante é validar tudo que eu sinto, penso e preciso expor, sem o medo de ser mal vista, de ser chamada de mal educada, de desnecessária, de agressiva etc. Hoje consigo ver os estragos que uma sociedade machista faz, mesmo que sutilmente, às mulheres. Quando as próprias mulheres fomentam esse estereótipo de “classe” e “elegância”, enquanto o outro está nem aí para o que sentimos

Quando somos traídos nos sentimos expostos, nos sentimos vulneráveis, pequenos e inúmeros outros atributos. Sair desse lugar é como tentar escapar de um lodo, de uma areia movediça. Difícil, mas não impossível. E, me sinto nesse processo de ascensão, que é quase divino e muito importante para a minha auto imagem. 

Posso dizer, com toda certeza, que me fiz pequena para caber em um molde. Tirei minha pele de foca, como diria Clarissa Pinkola Estés, e deixei que um homem comum me aprisionasse. Me sinto, resgatando minha pele e voltando ao meu lar, meu mar e a minha imensidão

Retornando à mulher selvagem que sempre habitou em mim, mas que foi podada, encurralada e domesticada. Não aceitarei mais cabrestos, não aceitarei ser marcada à ferro. Não me sujeitarei permanecer onde sequer o mínimo é feito. Onde minha voz não é ouvida e minhas palavras não são lidas. Onde eu não posso ser quem sou, onde minha alma não encontra acalento. Onde eu precise me calar para ser aceita

Prefiro, de qualquer forma, ser uma párea do que bem vista. Prefiro ser chamada de rude ou agressiva, do que de boa moça. Recato nunca foi um adjetivo que coubesse em mim, pelo contrário, eu sempre fui chamada de rebelde. Sempre honrei minha linhagem de mulheres fortes, mas como elas, eu calei. E, para mim, nesse momento, a maior das honrarias é não repetir o erro delas, é fazer valer cada célula do meu corpo que grita por liberdade. É dar voz ao BASTA que elas mesmas não puderam gritar.

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Era uma vez, uma mãe... © Copyright 2011-2022. - Versão lavander-book. - Original de Muryel de Oliveira. Tecnologia do Blogger.